quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Interrogação (?)





Interrogação sim, posto que não sei bem o que é isto, se crônica, conto, poesia, desabafo, diarréia, realidade ou ficção, melhor dizer o que não é, pois certo de que não é crítica, e duvidoso se realmente é, ou apenas está, como um acontecimento passageiro, como tudo, enfim, pouco importa, à dúvida não restam respostas.

Eram vinte horas e cinquenta e sete minutos e uma cabeça. Seu cérebro, entorpecido, pensamentos misturados em turbilhão, Valerá a pena? Será gostoso. E depois, o que será? Valerá a pena. Será gostoso? Os neurônios não chegam à um consenso, as veias se destacam mais e mais a cada sinapse realizada. Aos olhos, boca, ouvidos, às veias já salientes sob a têmpora, o sangue em frenesi tamborila descompassado. O silêncio é mesmo ótimo para enfatizar os ruídos do corpo. Tum. Tum. Tum. A vista no pulso, a mão vermelha, macia e vermelha, suada, carmim, gotejando perfume? suor? sangue? Tum. Tum. Tum. Foram três pulsações num segundo, é, o tempo é mesmo relativo. Nove horas. Tum. Tum. Tum. Olhos pro horizonte, graças a Deus, lá está, vêm sorrindo, que dentes lindos, chega brilham, tão brancos como nuvens? porra? micose? Melhor não pensar nisso agora, há coisas mais importantes a fazer, um passo por vez, o primeiro é o degrau do ônibus.

Sentam-se juntos, no fundo. Por enquanto estão a sós, mãos dadas, o que pode parecer romântico, mas não há tempo para romances, não agora, quem sabe um dia, quem sabe 1° de abril, mas agora atém-se apenas em notar quem está por vir e onde se acomodarão? incomodarão? Parece que não, mas, droga, as coisas nunca são como parecem ser, e lá vem um sentar ao lado, o dedo como que coreografado no nariz, entra-e-sai-e-desce-e-gira-e-volta-para-a-boca. Logo dormirá, não se preocupe, é o que diz, mas acho que a preocupação cede à vontade antes mesmo do primeiro ressonar do motor. São agora vinte e uma horas e trinta minutos, e na esquerda macia e carmim contam-se dez dedos entrelaçados, mas logo contar-se-ão mais cinco, e além destes, duas pernas, dois braços, peito e abdômen peludos, pinto e bunda. Os lábios percorrem corpo, pescoço, queixo, língua, dando margem aos beijos apaixonados? carentes? masoquistas? A única certeza nestes é o prazer de ambos, que gozam um do outro, e o homem, ao lado, que goza também de ambos, safado este diga-se de passagem, que preteriu o sono ao voyeurismo descarado. As mãos afagam os rostos, mas não há chance para o romance, vinte e três que são, já chegaram ao seu destino, e logo tratam de descer.

Cada qual para um lado, segue a vida, como se não se conhecessem em todos os sentidos, e com todos eles também. Olha para trás, e lá se vai o sorriso? o branco? a nuvem? a porra? micose? o sangue? o suor? a paixão? a carência? o masoquismo? Não importa, agora já foi, já virou ponto na vista, não mais o enxerga, ao menos até amanhã. Chega em casa, boa noite querido, como foi seu dia, tomam banho, comem algo, riem, vão dormir, o sexo para depois. 


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ciranda




Gira o mundo, corre (não anda);
- e você, não sai do lugar?
Gira, velhinho, rode em ciranda,
que seu coração não sabe parar.
A lira, anjinho, entre pra banda;
daí ou daqui não se deixa de estar.
Cante baixinho, pede (não manda),
diga para si o que pode faltar.
Venha, plantinha, cumpre a demanda;
aos mudos aqui só resta dançar.
Percebe, maninho, quem vive debanda,
mas sempre na banda volta a cantar.



domingo, 12 de dezembro de 2010

CONTRA-ATAQUE A INOCÊNCIA


Segundo o Blog Universo Universal, o deputado Jair Bolsonaro (RJ), reage ao "KIT GAY" de "forma veemente, a essa vergonha que foi firmada em um convênio entre o Ministério da Educação (MEC), com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), e a ONG Comunicação em Sexualidade (Ecos), conforme publicou o Correio Braziliense."

Não havendo espaço aberto para resposta - com comentário moderados, apenas duas opiniões estão publicadas - venho aqui expor a minha opinião publicamente. Não sou a favor do kit da forma que se expõe, mas é sim a primeira medida sócio-educativa que vejo ser incorporada à formação das crianças. Segue o link da postagem em questão e o vídeo, bem como meu comentário, que já acredito censurado.





_____________________________


Dá pra continuar a discutir o assunto sim, deputado.

Na verdade, o que deveria ser motivo de vergonha são as suas palavras, e de algumas pessoas que aqui comentam. O que não é abordado no seu discurso é que o homossexualismo não é uma escolha, não há opção quanto a isso. A escolha que é sim feita entre muitos consiste em esconder o fato (por vezes até mesmo de si próprio) ou não. E, assim sendo, homossexualismo não se estimula; ninguém escolhe, ninguém quer ser homossexual. Quem em sã consciência escolheria a trilha mais árdua; um mundo de agressões diárias, verbal e fisicamente?

Daí se explica o por que de existirem inúmeros casados, sob o testemunho de Deus, traindo seus companheiros com pessoas de sexo semelhante. Daí também, em muito pior grau, os casos de reclusão social, depressão e até SUICÍDIO que incontáveis vezes, mesmo não noticiados, acontecem.

Por que seria um absurdo que as crianças tivessem acesso a um vídeo assim? Tenho certeza que não se trata de um vídeo erótico, mas sim educativo. Seria muito mostrar que existe um outro lado da moeda? Acolher as crianças, homossexuais, dizendo que não há nada de errado com eles? E demonstrar aos demais que existem pessoas assim, e que são iguais?

É uma afronta ao sr. tratar um homossexual seu como igual?

Pois se é um absurdo que crianças heterossexuais sejam expostas ao vídeo que mostra outrem em uma relação homossexual, como se classifica o mundo, o vídeo biográfico em que homossexuais vivem, onde só há a exposição de relações heterossexuais?

É de extrema importância que as crianças sejam educadas sim quanto a isso. Talvez o vídeo não seja a melhor opção, e nisso eu concordo com o sr., mas ainda assim é uma medida sócio-educativa, visando combater a homofobia logo na começo da formação do homem. Por que não contabilizar quantos casos de agressão e auto-punição podem ser evitados com isso? Por que ao invés de criticar desenfreadamente, o sr., de pensamento contrário (e, ao meu ver, retrógrado), não dispensa tamanha energia em uma contra-proposta? Criticar é fácil, e o clichê continua valendo. (Depois da censura, acredito que este continue valendo apenas para alguns, né?)





terça-feira, 12 de outubro de 2010

Soneto - Bocage




Os garços olhos, em que o Amor brincava,
Os rubros lábios, em que o Amor se ria,
As longas tranças, de que o Amor pendia,
As lindas faces, onde Amor brilhava:

As melindrosas mãos, que Amor beijava,
Os níveos braços, onde Amor dormia,
Foram dados, Armândia, à terra fria,
Pelo fatal poder que a tudo agrava;

Seguiu-te Amor ao tácito jazigo,
Entre as irmãs cobertas de amargura;
E eu que faço (ai de mim!) como não sigo!

Que há no mundo que ver, se a formosura,
Se Amor, se as Graças, se o prazer contigo
Jazem no eterno horror da sepultura?

(Sonetos, Bocage)

domingo, 26 de setembro de 2010

Kamikaze

.

O ônibus se fora, com um aceno de adeus. Faltava-lhe ainda cerca de um quilômetro a percorrer até a casa, mas a vontade era de andar a esmo, dando margem aos pensamentos vãos. À exceção das horas despendidas no escritório, onde se desligava totalmente de sua vida pessoal, já faziam longos oito meses que sua cabeça ebulia com o "egocentrismo adquirido" - forma como nomeou sua nova e curiosa incapacidade: a paixão.

Compreendia o porquê de muitas de suas atitudes, ou a falta delas. De início, tudo lhe parecia muito simples como matemática. Uma progressão aritmética, onde se subtraem de um número natural suas decepções, uma a uma. O resultado será sempre menor que o anterior e logo a paixão se esvai. Tudo seguia perfeitamente conforme a lógica, porém a lógica não lhe bastava. Sabia que se tratava de um sentimento, que para estes não há razão, e envergonhava-se por explicar tão sucintamente o que os mais renomados poetas passam a vida remoendo das formas mais rebuscadas. O letreiro luminoso lhe despertou a atenção. Foram quatro segundos fitando-o até decidir entrar e mais quinze para encontrar um assento disponível frente ao bar.

- Kamikaze, por favor.

Realmente curioso era que quanto mais se dedicava ao enigma pessoal, mais se distanciava da solução. Se antes possuía a resposta na palma das mãos, agora a mesma era fluída, instável, escapando-lhe mais por entre os dedos a cada sinapse realizada. Imaginou a possibilidade de estar apaixonado pela paixão, tamanho o transtorno que a mesma lhe causara com sua ausência. Buscou por ela em diversos corpos, mas baldaram-se os esforços - tornara-se, mesmo, incapaz de apaixonar. Seria ela a razão de sua existência? Lembrou-se de sua mãe. Até então pensara em paixão, sem se dar conta do amor. No instante seguinte cogitou loucura. Pegou a taça que lhe fora servida e tomou 3/4 do drinque em um gole. A bebida, feita com vodka e limão, era amarga como a vida. Sentiu sua coxa tremer, e num toque constatou o celular vibrando.


- Oi querido! É a Rita! - disse de prontidão a voz no outro lado da linha. - Nosso rendez-vous ainda está de pé?

- Claro! Chego em 40 minutos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Dúvidas




De que vale o conhecimento parco?
E de que vale o sentimento vão?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Cândida

...

Quero tanto acreditar nesse sussurro tão manso e sem sobressalto
que fazem com tanto charme, assim, ao pé do ouvido.
Quero tanto ser burro e cegar-me o sonho em vôo alto,
atrapalhar-me, ludibriar-me, ser traído e, ainda assim, agradecido.

Quero tanto acreditar nos mitos e lendas, nos tantos contos ditos,
em Papai Noel, Fada do Dente, Homem do Saco e no Amor.
Quero tanto acreditar nas comendas quanto acredito nos eruditos,
ser ingênuo, imprudente, desconhecer a lógica e também a dor.

Nada de sinapses em minha cabeça; arranquem-me os neurônios,
façam-me fantoche e falem por mim. Não quero responsabilidades,
mas ser criança travessa e livre - livre dos homens, dos demônios.

E se o preço é caro pela crença, mais ainda por vaidades.
Talvez seja este o meu fim, o de Josés, Luizes e Antônios:
morrer não por doença, mas por perceber verdades.
.
.