quinta-feira, 22 de julho de 2010

Cândida

...

Quero tanto acreditar nesse sussurro tão manso e sem sobressalto
que fazem com tanto charme, assim, ao pé do ouvido.
Quero tanto ser burro e cegar-me o sonho em vôo alto,
atrapalhar-me, ludibriar-me, ser traído e, ainda assim, agradecido.

Quero tanto acreditar nos mitos e lendas, nos tantos contos ditos,
em Papai Noel, Fada do Dente, Homem do Saco e no Amor.
Quero tanto acreditar nas comendas quanto acredito nos eruditos,
ser ingênuo, imprudente, desconhecer a lógica e também a dor.

Nada de sinapses em minha cabeça; arranquem-me os neurônios,
façam-me fantoche e falem por mim. Não quero responsabilidades,
mas ser criança travessa e livre - livre dos homens, dos demônios.

E se o preço é caro pela crença, mais ainda por vaidades.
Talvez seja este o meu fim, o de Josés, Luizes e Antônios:
morrer não por doença, mas por perceber verdades.
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domingo, 18 de julho de 2010

Hit the road

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Prezo a verdade e tento ser sincero com todos, inclusive comigo mesmo. É a minha condição, o caminho que me propus a percorrer, ainda que desacompanhado. Mas confesso que algumas vezes, quase nunca e só por alguns instantes, uma pontinha de inveja me persegue. Acelero, freio num repente, tropeço de propósito e, quando levanto, já estou sozinho novamente.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sobre ser e estar


Sou o sangue que dispara nas veias salientes
e segue sem sequer definir direção.
Dos caminhos percorríveis e cativos tal correntes,
sou sempre o sim, o talvez e o não.

Eis que me vejo em mutação constante,
e da inércia não me faço submisso.
Sou intempérie desfeita num instante;
mas sou torpor, e que de mal há nisso?

Faça-me passagem, trem ou estação;
agora que percebo o que já sou,
tente levar-me alma, corpo e coração.

Mas saiba que tudo pode ser em vão;
perceba que ao invés de ser, estou,
um vórtice, uma constante evolução.

domingo, 13 de junho de 2010

Dias airados


Almoçou às dezesseis, saiu com amigos, bar e balada, jogou cartas e conversa fora, comprou pão e gente, jantou. Cansado que estava, atirou-se sob os trapos de Morfeu, para levantar às quatorze de sabe-se lá que dia. Viu pai, mãe, irmãos, filhos, primos, avós, cachorro, gato e papagaio, que cantarolou Banho de Lua em sua homenagem - banhou-se três vezes, só para refrescar. Foi feliz em seu ócio sem hora marcada, até o soar do despertador... de novo, segunda, de novo?

sábado, 12 de junho de 2010

Solidão consentida

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Parte 1:

Frio e solidão emanam de seu corpo e lhe fazem encolher sob as cobertas, tal qual feto no útero. Olha para fora, e por um instante acredita estar nevando. Apenas a sujeira que granula o céu e emoldura a cidade em tom de sépia, como retrato de um passado remoto. Há quanto tempo não vê o sol?

Parte 2:

O vento que parece assoviar Carmem prolonga "l'amour" para irromper no chacoalhar arrotado dos vidros semi-soltos de sua velha janela coberta de pó. Jamais aberta, nenhum outro sentimento conseguirá entrar aí.

Parte 3:

A espera da ligação que nunca vem, você busca o nome em sua agenda a fim de tomar frente na decisão. Ocorre que não quer ouvir uma voz específica, mas qualquer uma que dê identidade à um amigo. Todos mudos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Rejeitado em si



Uma descarga,
e um fluxo de insalubridade contínua,
e o caldo espesso e espuma abrindo caminho,
e já não há mais oxigênio aqui,
e o cheiro, o podre que faria cair um nariz,
da água fétida percorrendo os canais infindos,
e os ratos à margem que acompanham em bandos
os peixes e esterco que boiam e seguem o ritmo
num simulacro da vida que já não há mais aqui,
e na curva outro despejo clandestino,
amônia e uréia correndo e limo,
e o sexo, o imundo, o gozo,
e agora se segue outro rumo,
e sangue, muito sangue,
e agora é a lâmina quem abre o caminho,
e é vinho, é verde e vinho,
fluindo, saindo, caindo
e indo,
se indo,
sê indo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Verossimilhança



Estava cansado, mas não conseguia dormir.

- Hoje me sinto franco, soltou. Ocorre que, a princípio, o intento era dizer que estava fraco. O turbilhão de pensamentos acabou por expor a palavra torta, que depois de pronunciada, não lhe soou menos verdadeira. Comparou-se a um franco-atirador.